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22.5.06
![]() Luis
Oportunamente, decidi revelar porque aqui nos blogues e fora deles sou considerado um gajo tão porreiro.
A resposta é muito simples: Porque sou duro de ouvido. Já na vida não virtual, perguntem a quem me conhece, só percebo metade do que se diz. Se tanto. O que naturalmente me obriga muitas vezes a fazer de conta que percebi quando isso não foi o caso e, não estando em condições de discutir o assunto, a simular uma concordância genérica ou, pelo menos, a não exibir sinais em contrário. Está assim desvendado o mistério do meu sorriso simpático, um pouco inseguro, um pouco imbecil. Claro que isto se agrava porque não percebo as nuances da vossa língua, incompetência intelectual que acumulo com a minha deficiência física. Como qualquer deficiente, desenvolvi estratégias compensatórias, e a minha é a duma ingenuidade militante. Se sempre, quando não percebo o que se passa, me entregasse à interpretações paranóicas, o que, ao que entendi, é um passatempo popular nestas bandas, já teria dado entrada numa instituição. E é das ambições mais antigas e consistentes da minha vida manter-me, custe o que custar, fora delas! Já levo 46 anos de sucesso, e tenho muito orgulho nisso! Bom, agora sabem. Lutz ![]() A rosa picou-o, a ferida infectou e não houve nada a fazer, desafortunadamente. Nunca devemos cortejar os espinhos, mesmo que venham de flores. Luis
Tina Modotti. Roses, Mexico. 1924.
![]() Carla, enquanto os rapazes andam a circular - pela cave, pela oficina, ou sabe-se lá por onde - eu gosto de ir ao jardim. Este associativismo é, como já foi dito, de base individualista e não tem, por isso, plano quinquenal nem doutrina oficial. Às vezes gosto de ouvir os passos dos rapazes pela casa, e é isso de que se trata. Mas indo ao que interessa: na minha parte do quintal cultivo, não couves, nem outras crucíferas de interesse prático, mas rosas. Gostas de rosas? Espero que sim, eu gosto. Susana ![]() Não Carla, eu (e apenas por mim falo) não esperava, como é evidente, que você abrisse uma excepção. E aliás, também não vou abrir uma excepção a respeito do seu blog. Mas ao menos, tenho a delicadeza de lhe explicar porquê: gosto muito mais do original. Luis Por motivos alheios à minha vontade, encontrei-me hoje com uma greve de médicos num hospital público. Nos corredores desse labirinto interminável acotovelava-se uma gente maltrapilha de pernas em coto, chagas à vista e olhos gazeados, que berrava contra o Governo e prometia a revolução. De vez em quando passava por ali uma bata branca - e logo uma horda de campónios se erguia de chapéu em punho, suplicando mansamente para falar com o senhor doutor. Não há melhor metáfora do que um grande hospital. Luis
Não sei se lês este blogue. Já te disse que é para maiores de dezoito. Não por causa das imagens postadas mas por exemplo por causa do post anterior, que não é para maiores de dezoito, mas para maiores de 180. Ou seja para velhos e derrotados.
Não acredites no Frid. Nada. Ele não tem razão, ou melhor: ele que fale por si. Só. David Bowie é que tem razão.
Frid - A noite de Verão tem três sorrisos. Este é o primeiro, da meia-noite até à madrugada, quando os jovens amantes abrem os seus corações e o seu ventre. Olha ali, no horizonte, está um sorriso tão suave, tens de estar muito quieta e atenta para conseguires vê-lo.
Petra - Os jovens amantes... Frid - Isto emocionou-te, pequenina? Petra - Por que é que eu nunca fui uma jovem amante, podes dizer-me? Frid - Minha pequenina... consola-te. Há apenas alguns jovens amantes no mundo. Quase se podem contar. O amor aconteceu-lhes como uma dádiva e um castigo. Petra - E o resto de nós? Frid - O resto de nós!? Petra - O que nos acontece? Frid - Invocamos o amor, chamamo-lo, suplicamo-lo, gritamos por ele, tentamos imitá-lo, pensamos que o possuimos, mentimos acerca dele... Petra - Mas não o temos. Frid - Não, minha doçura. Negam-nos o amor de amar. Não temos essa dádiva. Petra - Nem o castigo. Frid - Nem o castigo. Sorrisos de uma noite de Verão (Sommarnattens leende, 1955) de Ingmar Bergman Mais no Sentimento do mundo. Lutz ![]() Susana
Há demasiados portugueses a roubar o trabalho das pessoas sérias e competentes que moram neste país.
Luis Dez dias depois da inauguração ainda andamos a arrumar a casa e a fazer o ménage - só por isso se justifica o atraso deste post. No entanto, seria imperdoável não agradecer a quem recomendou (ainda que por portas-travessas) o Lugar Comum desde o primeiro momento. Se por aqui faltar alguém, atribuam a ausência às imperfeições do Technorati, que teremos todo o gosto em corrigir. Agradecemos à asl do Glória Fácil, ao Eduardo Pitta do Da Literatura, ao FNV e ao PC do Mar Salgado, ao Rui do Adufe, à Meg do Subrosa, ao Miguel Cardina d'A Cidade Vaga, ao AMC do Porque, ao on do Prozacland, ao Pedro Mexia do Estado Civil, ao José Mário Silva d'A Invenção de Morel, ao António Costa Amaral d'A Arte da Fuga, ao Filipe Moura d'O Avesso do Avesso, ao Francisco José Viegas d'A Origem das Espécies, ao Azia do Azeite&Azia, ao João Pinto e Castro do Blogoexisto, ao Pedro Vieira do Agridoce, à Ana Gomes Ferreira do Simples Sopros, à Carla Carvalho do Welcome to Elsinore, à Ana Cláudia Vicente d'O Amigo do Povo, ao besugo do blogame mucho, ao José Pimentel Teixeira do Ma-Schamba, ao António do Diário da República, à Carla Quevedo do Bomba Inteligente, ao Bruno Sena Martins do avatares de um desejo, ao Francisco Bairrão do Em Busca da Límpida Medida, ao Hugo do Solvstäg, ao Luís d'A Natureza do Mal, ao Mário Almeida d'A Fonte, ao Mário Alberto Machado do novíssimo livro da ensinança de bem cavalgar toda a sela, ao Miguel Marujo do Cibertúlia, à Isabella do Perdido, ao Miguel Silva do Tempo dos Assassinos, ao Paulo Gorjão do Bloguitica, ao Rui Bebiano d'A Terceira Noite, ao cbs do La Force des Choses, ao Pedro Correia do Corta-Fitas, ao R do Ultraperiférico, ao Tomás Vasques do Hoje há conquilhas, ao jmnk do descrita, à MIP do das pequenas coisas, ao timshel do timshel, ao Luís Novaes Tito do Tugir em português, à Helena Araújo do 2 Dedos de Conversa, ao Henrique Fialho do Insónia, ao Gabriel Silva do Blasfémias, ao Leonel Vicente do Memória Virtual, à Polly do Diotima, à Margarete do Acknowledge Yourself, ao +10 do Por estes dias, ao Luís Mourão do Manchas, ao K do Kafka - O Antivilacondense, à IO do Perdido, ao Cajafeste d'O Cafajeste, ao David Luz do Linha dos Nodos, ao Luis Carmelo do Miniscente, ao e é amartya sen, perdidamente, à Sofia do E as Fadas... também se enganam no Caminho? e ao João Tunes do Água Lisa 6. Queremos ainda deixar uma palavra de agradecimento a todos os bloggers que até hoje nos incluiram nas colunas de blogs dilectos, dispositivo que, uma vez que desde o início decidimos parar muito na cave, não adoptámos. Que a falta de reciprocidade não engane ninguém. Como diria o Carpenter, we live. *Em actualização. Susana, Afonso, Lutz e Luis
À verdade deve-se a crónica pré-histórica da epidural duma certa senhora de sociedade. Durante o acto de parir, no auge das contracções não esteve com meias-medidas (também conhecidas por papas na língua). Fôlego, timbre e sentido de pôr em sentido até o homem tarimbado de rua concorreram repetidas e consecutivas vezes: filho da puta, nunca mais fodo com aquele cabrão. Não sei se sim nem se não, mas quanto a prole nem mais um para amostra. Sem planear resistir, não se deixou ela apanhar pela razão hedionda que as vexa e chama à culpa. Pudessem – que não podem – todas.
Afonso
Um dia devia ser feita a antologia do horror das frases cruéis e até sugiro que fosse publicada em formato de lista telefónica, deixada sobre o tapete à porta das casas. A letra pê talvez merecesse uma separata. Pê de parturiente: estás a gritar, estás a chamar mas não chamaste para o fazeres*. Pê de puérpera: essa mama não presta, o menino não vai medrar. Ninguém sabe nada sobre a crueldade antes de ouvir este repertório. Bem fala o Albino Aroso em heroísmo.
* Em boa hora recordada no Mal. Susana
Há uma inocência quase comovedora no snobismo dos gourmets. A alacridade com que festejam as três merecidas estrelas Michelin de Olivier Roellinger, ou lamentam as do sobrevalorizado La Pergola, sempre provocou em mim sentimentos alternados de ternura e desdém.
Gostaria, no entanto, de informar o estimado público que na próxima semana, por insistência deste vosso criado, já poderão extasiar-se com o célebre gelado de arroz-doce da Pastelaria Suíça, uma delicadeza que muito nos orgulha. Embora não atinja os pináculos elegantes das inesquecíveis frutas da Giolitti (a melhor geladaria de Roma, e por extensão do universo), o arroz-doce da Suíça faria empalidecer de vergonha o senhor Santini, se ainda fosse vivo, e esmagaria os infelizes clientes da Hagen-Dazs no Chiado, se estes por acaso tivessem um palato. E já que estamos em época estival, deixo-vos com uma recomendação para férias: o sublime gelado de manga que poderão desfrutar na esquina da Sussex Street com a Goulburn, em plena Chinatown de Sydney. São vinte e duas horas de voo, leitores. Mas valem a pena. Luis ![]() Stalker, 1979 Andrei Tarkovski Sait-on jamais quels désirs peuvent venir à la tête des gens. E assim, nomeando a espessura-enigma, recobro do assunto sensível que tinha entre mãos. Eu também sou animal acossado, rata temível rojando matéria primitiva. A água, a pele, o raso dos terrenos férteis, a pegada lodosa, a síntese orgânica, a Casa vazia que traz os pais dos avós da Morte, um objecto obscuro, o desejo de trégua. Eu, criança exausta, ruída, aceito a graça. Fecha-me os olhos e dá-me a forma de um único vulto. Afonso ![]() Na minha educação sensual têm um especial lugar duas filhas de padeiro. A primeira ensinou-me, aos doze, a dançar o blues agarrado e o beijo da língua. A segunda, mais tarde, alargou os meus horizontes com mútuo proveito, emprestando-me o Fanny Hill. Houve quem dizia que não foram as mais elegantes, mas a malta não percebeu que as suas qualidades foram, como outra coisa não seria de esperar, do foro táctil. (Imagem do Largo do Karma) Lutz
Henrique, isto é o que acontece quando fechas uma mulher e três homens numa casa, sem nenhum propósito delineado, nenhuma tarefa encomendada, entregues ao que lhes der na gana. Ou pelo menos, é o que aconteceu aqui. Não acredito e não desejo que continue assim.
Mas não será tomada, pelo menos no que me diz respeito, nenhuma decisão editorial sobre isto. Como não foi tomada nenhuma antes. O Lugar Comum não é um projecto, é uma experiência. Qual é o meu plano? Fazer um post. E depois outro post. E depois outro. É este o meu plano. E se o meu próximo post ainda te confirma a ideia dum tal Eros-Blog, assim seja. Lutz
Antigamente lia T. S. Eliot e pensava muito na morte. Depois tornou-se um especialista no assunto e deixou de pensar. Nada é menos poético do que a devastação.
Luis
"Haverá espaço para os blogs que fazem um post por semana? Penso que sim, especialmente se aqueles que se cansam de visitar os seus blogs favoritos sem encontrar posts novos criarem um kinja.
O kinja acaba com o caracter utilitário da barra lateral onde se anunciam outros blogs. Esta barra passa a ser um instrumento político. Que podemos até omitir. Omissão essa que também é uma afirmação política." (ON, no Prozacland) Lutz
A propósito duma questão que tem presênça também neste blogue, os límites do decoro, recomendo este post de Miguel Cardina, também com uma imagem bem ilustrativa.
Lutz
Uma frase, que é o título de uma obra de um artista, Matt Mullican, que já desafiou o abjecto na raia da demência, o desastre interior. Anda por aí. Andamos por aí. Anda-me.
Afonso
Era uma vez um rei e uma rainha que muito queriam ter uma princesa. Tentaram muito, mas sem sucesso. Consultaram médicos, curandeiros, videntes e mesmo bruxos, que lhes receitaram chás de folha de amora, sumo de romã, pó de corno de rinoceronte. Em vão. Aconselharam-nos de variar as posições, e assim o casal diligente exercitava-se na posição da égua, na do bambu rachado, até na difícil da flor de lotus. Sem efeito. Encorajaram-nos de aperfeiçoar-se na técnica da penetração rasa, dita muito eficaz para a concepção de meninas, o que fizeram, apostando ainda, sempre que ele conseguia, nas vantagens do pão duplamente barrado. Tentaram tudo, mas nada resultou.
Como se amavam muito – lembram-se que é um conto de fadas – o rei não despachou a rainha para tentar a sua sorte numa rapariga mais nova e porventura mais fecunda - não, ficou fiel e ao fim de anos de esforço inglório ambos acabaram por conformar-se. Renderam-se ao destino e dedicaram-se doravante à arte de cavalgar e de ser cavalgado com nenhum objectivo ulterior ao do prazer. Foi agora, o que não surpreende a quem sabe destas coisas, que a rainha engravidou, e nove meses depois nasceu a tão esperada filha. Contudo, e desde o primeiro dia isto entrou nos olhos dentro a todos, havia um pormenor nesta história feliz que ameaçava transformá-la num grande desgosto. Para os pais e, pelo menos mais tarde, para a filha também. A menina era, não havia maneira de lhe chamar outra coisa, feia que nem um trapo. Raras vezes viu-se uma criança tão preterida na distribuição dos encantos naturais como esta. Mesmo a tez tenra e saudável da juventude, capital que as raparigas de resto pouco contempladas por Afrodite podem rentabilizar a seu favor, e que, se o jogam em tempo útil com juizo e espírito predador, lhes dá uma oportunidade de sair do mercado casadoiro com um marido de três vezes da sua idade e, se não dotado de outra forma, talvez ainda dono duma modesta fortuna... mesmo este recurso foi concedido a nossa princesa só em medida pouco apreciável. Mas era princesa e tinha pais que a amavam. E eles não eram pessoas para agora se darem por vencidas. Não se contentavam com banhos de leite e mel, águas de rosas, as várias loções, pomadas e outras receitas equivalentes aos botoxes e colagenes dos nossos dias que os médicos, já bastante desacreditados pelo seu desempenho anterior, prescreveram à sua filha. Tiveram uma ideia melhor. Deixaram-na crescer na convicção de que seria das princesas, que digo: das meninas todas uma das mais lindas no mundo, formosa e resplandecente, dona dum encanto que por si só vencia os corações dos que a rodeavam (que eram servos escolhidos e instruidos pelos pais dedicados), e senhora dum sex-appeal irresistível e apenas domado pela educação excelente que recebeu. De maneira que se enraizava nela a convicção de que seria um ser adorável, abençoado pelo destino, e por seguinte um desejo natural de retribuir ao mundo a sua sorte com a partilha generosa do seu encanto. Já perto da idade para passar à prática procriativa aconteceu-lhe, porque tinha de acontecer, o grande infortúnio. A revolução. O reino desmoronou, a plebe ocupou as ruas, e os pais nem tiveram tempo de despedir-se da filha, tão rapidamente foram-lhes cortadas as cabecas dos corpos reais. A princesa sobreviveu, escondida por criados no seu mundo artificial, mas com o tempo também este se desfez e no fim a nossa heroina acabou por ver-se exposta ao mundo real: só, uma cidadã anónima, pobre e feia da nova república. Porém, o fim trágico não sucedeu. Pelo contrário. Com a convicção inabalável do seu encanto, segura de si, continuava a portar-se com inegável graça, convencendo a poucos todos a sua volta de que estavam perante uma donzela bem desejável, o que lhe permitiu escolher entre muitos rapazes viçosos, dispostos a barrar-lhe o pão as vezes que lhe apetecia e de viver com ela feliz até ao fim dos seus dias. Lutz ![]() At first glance the large painting is very beautiful. The seductive pink is complemented by the many colours of the butterflies, making for a highly decorative result. Closer scrutiny of the painting, however, reveals the butterflies not to be painted: Hirst has used the wet paint as flypaper to the live butterflies. The gargantuan heart has been turned into an aesthetic but banal and devious death trap. Untitled is a modern interpretation of the classic vanitas motif with an extra dimension added. The painting does not merely represent the perishable life; death is palpably present in the work. Damien Hirst. Untitled (Birthday Card). 2001 - [Butterflies and household gloss on canvas - 213,4 cm diameter] Susana ![]() Nudes ama12, 2000 Thomas Ruff Acto de contrição da facção masculina? Fala por ti, Lutz. Eu estico a corda. Só quero conversa de cona. Sem mas nem folha de videir(inh)a. Afonso
O JPT decidiu mudar de vida. De deixar o vício. Sei que devia desejar-lhe sorte e sucesso, mas como eu próprio sou um agarrado, preferia que voltasse a ocupar o seu lugar à volta da fogueira no barril e partilhar connosco a garrafa de vinho de martelo. Há dias, por motivos semelhantes, troquei o estaleiro abandonado por uma casa confortável, com lareira e tudo. Agora tomo banho regularmente, como três vezes por dia, e bebo só vinhos DOC, mas já comecei a perceber que a desentoxicação não se faz tão facilmente...
Boa sorte, José Flávio, tens sido um bom amigo, de copos e não só. Vai com Deus. Ou antes, que se fode: Volta! Lutz
É verdade, as novas companhias neste lugar têm me levado a bandas de libertinagem onde até há pouco não me teria atrevido por o pé. Pelo menos não em público. Acredito que até o leitor mais distraído já reparou na atmosfera erotizada neste blogue, e acredito também que lhe possa parecer que a responsabilidade para isso cabe aos seus membros masculinos, ainda que a uns mais do que a outros. As palavras da Susana no post anterior parecem confirmá-lo. Razão tem ela ao dizer que não tem isso a ver com nenhuma linha editorial, que não existe. Mas ela que se desengane também: se o ar do nosso Lugar Comum está prenhe de sugestões impuras, isto é antes de tudo - iria mesmo longe de mais ao dizer unicamente? – atribuível à ela, a Senhora desta casa, cuja mera presênca mesmo neste momento, em que se encontra fisicamente afastada de nós por mais de três mil kilómetros num país sóbrio e frio, norteia, sim, alinha como se fosse magneticamente a nossa imaginação em direcção ao assunto que, se não fôr implacavelmente reprimido em tempo útil, se apodera por quase completo das nossas mentes, sem deixar espaço para assuntos mais dignos e sérios.
Reuni os restos da minha força de vontade e decidi: chegou a altura de redimir-me. Como não é boa solução retirar posts já publicados - fiquem estes então como testemunhos da fraqueza moral do sexo forte - resolvi fazê-lo escrevendo um novo. Um post em que muito deliberadamente não omitirei a sexualidade, mas desta vez tratá-la-ei com o necessário decoro e antes de mais no contexto mais legítimo de todos, o da procriação. Talvez seja exagero dizer que o post até poderá colher o imprimatur do Prof. João César das Neves, mas acredito honestamente que não andará muito longe disso. Será uma história edificante, um conto de fadas. Amanhã verão. Lutz
Os rapazes andam desencabrestados. Desenganem-se os optimistas, não há linha editorial por aqui. E já agora, os outros também. O meu ideal é ter quinze leitores e nenhum deles ser cotado na bolsa da despiolhagem recíproca.
Susana ![]() António? André? Bruno? Carlitos? Edudu? Francis? És tu, Gustavo? Tiago? Man Ray. Rayograph. 1922. Susana
Uns mandam-nos cartas à moda antiga, por e-mail ou sms, outros mandam-nos flores, outros suspiros e olhos raiados, mãos no peito ou em bolso de regalos. E outros, nada, só silêncios extremados. Para uns somos anjos e não há queda que nos chegue, do plano não faz parte. Para outros, demónios, nenhuma candura permitida. Muitas vezes, muitas mais que algumas vezes, finge-se que acreditamos, descontando, claro, todas aquelas vezes em que cada "não" é decantado em sinuoso artifício do desejo que não temos e que com tanta mansidão se leva até diluir. E se queremos, fingimos que sim, fingimos que acreditamos. E nós, se queremos, fazemos um sim, se querem um anjo, damos um anjo, se querem um demónio, levam-no também. A tanto conduz a sinceridade.
Susana ![]() Untitled (In the garden) [Ink on vintage magazine], 2005 Dr. Lakra Quando fores à cave, Lutz, não deixes a porta aberta, um instante que seja. Esta esgueirou-se para o jardim. Infelizmente para uns mancebitos incautos que saltaram o muro, tem um cisma levado da breca de dar asinhas a tudo o que medra em dois tempos. Afonso
Mais para o fim deste dia vou postar as primeiras "playmates" (salvo seja) do Lugar Comum, que descobri aqui nesta casa.
Lutz
Não fosse gostar tanto de – fazendo do polegar e do indicador da mão esquerda instrumentos de uma techné que os meus amigos invejam e as minhas amigas gabam – tirar macacos do nariz, dar-lhes consistência de massa de pasteleiro e forma de pequenina esfera e deitar-lhes o dente como quem se atira a pão-podre, tentaria ser a ovelha ranhosa deste Lugar que já considero a minha terceira família. Sabendo, tão bem sabendo que o óptimo é inimigo do bom e o bom parente do medíocre, contentar-me-á ser o patinho feio. Mas não farei disso cavalo de batalha. A vida mostrou-me que é quando mais tento que mais peno.
Afonso
Era uma esteta, mais que uma estéticienne. Gostava de roupas bonitas, de lugares bonitos, de gente bonita - bon chic, bon genre, glamorosa, soigné. Amava os cintos Versace, de fivela dourada e gárgula imperial; as blusas Hermès, os scarpins do Cavalli, as carteiras Louis Vuitton com monograma, quase originais, que o Torres lhe trazia de Macau.
O Torres, sempre possessivo, era-lhe fiel, embora vivesse em amizade cândida e sem mácula, de leitos separados, com a outra, a vibora, a cabra, a Jezebel - que neste caso era também sua mulher. Quando Lizete ceava com o Torres, à meia-noite, no Galeto, tremia pelos descuidados cavalheiros que do lado oposto do balcão, sem repararem nele, lhe cobiçavam as formas generosas sob a blusa decoleté. Mas o aguçado interesse dos homens, embora imprudente, não era baldado: Lizete representava essa coisa raríssima, que é o triunfo da vontade sobre a natureza. Com o Salão de vento em popa, ela podia dedicar-se à intrincada arte de não envelhecer. Incorrera numa sucessão misteriosa de peelings, mesoterapias, drenagens linfáticas, endermologias e preenchimentos. Penetrara nos ritos insondáveis da toxina botulínica e da estimulação russa. Cortejara a dermolipectomia, a ritidoplastia, a blefaroplastia e os ultrassons. Triunfara sobre as rugas, as varizes e a menopausa. O tempo era seu escravo, não o seu senhor. Ao contrário da vasta maioria das mulheres, Lizete orgulhava-se ao olhar para fotos de uma década atrás. Todos os dias consumia uma hora em frente ao espelho, sem um gemido, sem um lamento – para se vangloriar. Escovava o cabelo, massajava o pescoço e a nuca (onde não temia ser beijada), e acariciava os seios firmes, que tratava por mamas como um clínico geral. Tinha orgulho, nas suas mamas. Não por serem resolutas. Não por terem redondezas e extremidades, como as de uma de rapariga. Mas porque ao contrário do abdómen, das coxas e dos braços, ao contrário das pálpebras, do queixo e do nariz; ao contrário das carteiras Vuitton, dos lenços Hermès, dos casacos Balenciaga, ao contrário até do seu noivo eterno, pusilânime e fanfarrão, as mamas da Lizete eram verdadeiras. Honestas. Originais. Luis
Ano Novo, 1949
O clima da simpatia – como dependemos dele! Isto revela-se quando uma simpatia, que tinha estado presente durante muito tempo, nos é retirada. Então é como não tivessemos ar debaixo das asas. Pergunta: Será a simpatia, que nos dá a sensação de poder voar, nada mais do que uma ilusão amável, a caridosa omissão da crítica, de forma que devia reconhecer-se o outro clima – aquele clima sem simpatia – como o mais válido, o único válido? O contagiante: basta uma única simpatia em todo o círculo, e quando essa é cancelada, cancela o círculo todo, que não tem nada por cancelar. (Como o seu olhar, taxativo, te deixa.) Certo, podemos encolher os ombros, virá-nos para onde nos espera simpatia, ou conquistar nova – isto tudo não altera nada no terror de como estamos perdidos, onde nos é retirada a simpatia. Perdido: sem Anjo de Guarda. (Max Frisch: Diário 1946-49) Lutz
...a toda a equipa, mas com especiais cumprimentos para o Pedro e para o Filipe, pelos três anos do Mar Salgado, até há dias o meu preferido blogue colectivo!
Lutz ![]() Carleton E. Watkins. Arbutus Menziesii, California. 1861 Um zumbido surdo, um rumor de folhas. Uma árvore que me lembra Amarcord, que é a palavra de dizer eu recordo no dialecto de Fellini. Alguns insectos. Falta alguém que trepe pelo tronco, alguém que se escanche no ramo mais alto e deixe cair um uivo áspero voglioooo una dooonnaaa. O rapaz de catorze anos que estava ao lado não riu. Não era engraçado. Não era, não é.
Susana ![]() O último número da Ag revela-nos o mais recente projecto de Bill Jay, antigo editor da Creative Camera. Bill Jay foi morar há três anos para uma pequena cidade costeira, perto de San Diego, povoada por ex-hippies, surfers, bikers, Vietnam vets, and old men who make the beach and alleys their home. These men and the places they inhabit are the subject for this project, Men Like Me, which is just published, the title having been inspired by the youngest of Jay's three daughters, Hannah. Regarding her father's new surroundings Hannah commented: "You fit right in, Dad, there are a lot of old geezers here who look like you." O livro ainda não tenho, a revista vale a pena comprar. Luis
Para visitantes de sexo feminino não é obrigatório o uso de gravata. As prezadas senhoras queiram guiar-se pelo exemplo dos costumes da casa apresentado mais em baixo.
Pela gerência, Lutz Brückelmann
Dei de caras com uma moça vistosa na praia. Ela a sair, eu a entrar. Para contar toda a verdade o nosso interconhecimento, que o houve, começou numa rasteira que, por obra de um grão de areia que se me introduzira no olho direito, me fez perder definitivamente o equilíbrio. Digo bem: definitivamente. Trazia a bipedidade já periclitante de gingar ao som do Perfect Day do Lou Reed. Mas a rasteira revelou-se um acto virtuoso. Ajudei-a a levantar ainda a tempo de dar por findo o interconhecimento e seguir com a vida. Aquilo, cheio de varizes, não era pernas e por conseguinte pessoa que se apresentasse. Tudo se passou em Março. Graças a Deus. Como ensina o bom Povo: a partir d’Abril, hormonas mil (a turvar a acuidade visual).
Afonso ![]() Lutz (Pierre Gandon) Já não recordo onde li que Madame de Maintenont, amante de Luis XIV, lamentava em público a flatulência do Rei-Sol, vulgarmente atribuída à sua incontrolável afeição pelas lentilhas. Dizem que a presença do monarca se fazia anunciar pelo odor nas alamedas de Versailles, e que um dia o general de Beauvilliers, perguntando a Saint-Simon quem vinha lá ao fundo, recebeu como réplica espirituosa Sua Ventosidade. Quando André Le Notre pretendeu mostrar ao rei as ervilhas-de-cheiro dos seus jardins (hesitando muito, pois a palavra cheiro era, obviamente, desencorajada pelos costumes da corte), decepou algumas ramas e aproximou-as do nariz pouco sensível de Sua Majestade, evitando assim que esta cedesse à tentação irreflectida de se curvar. Felizmente, os descuidos do rei eram pestilentos, mas silenciosos - ao contrário da senhora sua amante, que nunca se calava, mas rescendia invariavelmente a água de rosas. Luis Idade balzaquiana?! Meu caro, tire daí a ideia. Fazendo fé em Schopenhauer, na sua mui física Metafísica do Amor, a idade em flor do belo género varonil é pelos trinta e cinco anos. E depois disso, digo eu, há-de cumprir-se em estágio mais uns bons pares de anos até ao ingresso na zona homóloga das trintinhas e trintonas, pois tanto é necessário viver para que os viços progridam em vitualhas e estas abram o caminho aos ligeiros faisandés (haja artes e ventura, esses ainda maturam em beaux restes, e daí é saltar directamente para vintage, com a benção dos sátiros). Se a idade é adulta, também não sei.
Susana
Untitled Film Still, #43, 1979
Cindy Sherman Quando vejo uma menina bonita carecida e aflita fico com uma vontade louca de a trazer para casa e aninhar na cave. Que não alarme. Prometo limitar-me a sublimar até ao fim dos meus dias, todavia esperançoso de que o Inferno, apesar de cheio que nem um ovo, posso ainda acomodar mais um juramento. Afonso
Quase todo o estudante em Berlim tem experiênia de WG. Quem não era mesmo de lá, o que eram poucos, e que não era menino mesmo fino, acabava muito provavelmente por morar numa destas “comunidades de habitação”, que se instalaram nos espaçosos fogos dos velhos e sublotados prédios da Berlim Ocidental. Vivia-se bem aqui, com poucas massas e longe da casa paterna.
Mas para entrar numa WG era preciso passar por uma audição, de que nem uma boa cunha dispensava, que era também útil mas não suficiente. As audições serviam para descobrir as compatibilidades ou a falta delas entre o candidato e os habitantes já instalados. Conforme o caso, os critérios variavam, mas inevitavelmente cobriam também o foro pessoal, senão íntimo do candidato. Sempre se pretendia viver juntos, e como as WG nasceram do movimento anti-autoritário de ’68, as velhas convenções já não serviam de base comum, e as novas oscilavam conforme a variante do projecto ideológico em experimentação e com a intensidade em que se estava empenhado em prová-la superior à família tradicional. Com os anos, claro, o brio ideológico moderava-se, mas não se anulava com um pragmatismo fruto de experiência frequentemente dolorosa. Mas vamos à audição: “Olá, sou a Anna. Esta é a Elke e aquele é o Paul que é o namorado da Elke, mas cada um tem o seu quarto, claro. Aliás, o Paul é "bi" e por isso partilha o quarto com o Fred, que não está na reunião porque não é da WG mas mora aqui de momento porque se separou e ainda não tem onde dormir nem dinheiro. Percebes seguramente que não podemos sustentar mais um caso destes. Tens dinheiro, pois não? É que o Paul é um caso especial: é um dos fundadores da WG. Já agora, tu és straight? Ainda não explicaste bem quais as tuas ideias sobre morar aqui connosco. Qual o teu projecto. Andas num grupo? Estudas? És Autónomo*? Não tens problemas com a bófia, ou tens? Olha, em respeito à bófia: Uns charros não fazem mal, mas não podes guardar coisas duras cá em casa! E junkies é que não! Ouve, se trazes junkies para aqui, há bronca a sério! Uma vez por ano fazemos uma grande festa, que por acaso já é p’ra semana, vêm por aí umas duzentas pessoas, aqui toda a gente costuma de partilhar os seus quartos com quem não pode ir para casa nesta noite. Claro que não é obrigação nenhuma, mas é uma tradição. Não terias nada contra, ou terias? Temos dois frigoríficos. Aquele é para as coisas comuns, e este para as particulares. Esta prateleira seria a tua. A malta aqui é macrobiótica. Tu comes carne? Não é condição, claro, mas para dizer a verdade, não gostamos carne cá na WG... E aquilo é a máquina de lavar, depois eventualmente explicamos como funciona, cada um lava a sua roupa, claro, e a sua louça também; as limpezas das zonas comuns são por turnos, uma vez por semana, e ao saíres da banheira, limpas esta linha cinzenta a volta! Tá bém?” Porquê conto isso tudo? Porque assim posso garantir aos meus visitantes e comentadores do Quase em Português que, fortalecido por esta experiência, assegurei nas negociações com os meus coabitantes que vocês me possam aqui visitar com a mesma frequência e o a-vontade como no QeP, e fazer o barulho ao que lá se habituaram. * Anárquico violento Lutz Ele era espanhol mas vinha de S. Paulo, com sotaque adequado e denguices tropicais. Fez questão de me contar, em jeito semanticamente inspirado, que, embora de verdes anos, era confesso devoto da Virgem e amante do desporto. Conclusivamente, que nunca largaria nem seu tênis, nem seu pênis. E jurou-o por vários santos nomes. E se jurou por vários santos nomes...
Susana
Quatro alminhas de génio duro, circunstancialmente húmido mas puro, sobreviventes contumazes de crises passageiras, habituadas a não prestar contas de batotas e baldrocas a ninguém, encontraram-se numa esplanada numa cálida tarde de Primavera em Lisboa, sob as indulgências de uma menina verdadeira saboreando o seu banho de sol. Prestaram-se mais atenção ainda e do estado de pragmatismo que nunca fez mal a ninguém a ideia fez-se ideia feita. Um lugar comum. Isto. Começa agora, é pr'ó menino e pr'á menina e não vira as costas aos maiores de idade. Venha alienar-se connosco.
Susana, Afonso, Lutz e Luis |